Políticas e estratégias para combater a AIDS

01-12-2010 23:43

É pouco provável que se contenha a epidemia da AIDS entre os jovens no mundo inteiro, se não for adotada uma estratégia mais ampla e conduzida uma campanha em larga escala para acabar com as infecções pelo HIV. Mesmo os esforços vigorosos tomados atualmente para controlar a AIDS em âmbito global chegarão tarde para muitos jovens. Em Zimbábue, por exemplo, em 1983, a probabilidade que tinha um rapaz de 15 anos de idade de morrer antes de chegar aos 50 anos era de 15%, mas, devido à AIDS, esta chance passou a ser de 50% para um rapaz da mesma idade em 1997. Em Botsuana, estima-se que 90% das moças e 88% dos rapazes que fizeram 15 anos em 2000 morrerão de AIDS, se continuarem os níveis atuais de risco. Em Zimbábue e África do Sul, a AIDS provocará a morte de quase 70% dos homens que hoje têm 15 anos. Pior ainda, segundo estimativas da UNAIDS, mesmo que o risco da infecção de HIV pudesse ser reduzido à metade antes de 2015, o número de mortes provocadas pela AIDS seria apenas um pouco menor nos países mais afetados pela epidemia. Isto se deve ao fato de que muitas pessoas já foram infectadas e provavelmente infectarão outras mais. Em Botsuana, mesmo que o risco da infecção fosse reduzido à metade até 2015, quase 80% do homens que têm atualmente 15 anos ainda morreriam de AIDS. Igualmente em Zâmbia, mesmo com a redução do risco de HIV à metade até 2015, mais da metade do homens que hoje têm 15 anos morreriam de AIDS.

 

 

Infâncias perdidas. Nos casos em que a AIDS forçou muitos adolescentes a assumir o papel de adultos, a transição da infância à idade adulta está desaparecendo. Freqüentemente, as crianças têm que abandonar a escola para tratar de um dos pais ou um parente à morte. Como a AIDS consome rapidamente os orçamentos domésticos, sobram ainda menos recursos para a educação, saúde e outras necessidades das crianças. Na Tailândia, por exemplo, 15% das famílias rurais afetadas pela AIDS retiraram um filho da escola. Na Costa do Marfim, o orçamento educacional das famílias foi reduzido à metade. Em Uganda, após a morte de um ou ambos os pais, as chances de uma criança voltar à escola reduzem-se à metade, e mesmo os jovens que continuam a freqüentá-la passam menos tempo na escola do que antes. Além do mais, as crianças que cuidam de familiares com AIDS, mas que permanecem na escola, são geralmente mais velhas do que seus colegas e, portanto, têm maior probabilidade de abandonar a escola mais cedo.

Algumas estratégias que estão sendo propostas para aliviar o impacto do HIV/AIDS sobre as crianças incluem o subsídio das despesas escolares tais como uniformes e matrículas. Outras incluem o oferecimento de vales-refeição ou outras formas de garantir que a criança se alimente adequadamente.

Redução da produtividade. A perda de vidas adultas à AIDS provavelmente diminuirá a produtividade nos países mais afligidos. Alguns economistas prevêem que no setor manufatureiro a mortalidade devido à AIDS provocará um declínio das receitas e resultará em crescimento econômico mais lento. É provável que o HIV/AIDS leve a uma grave escassez da mão-de-obra, sobretudo na agricultura. Algumas regiões já relatam quedas na produção de alimentos de origem agrícola. Os jovens que não têm experiência de trabalho rural têm pouca probabilidade de conhecer técnicas básicas tais como irrigação, melhoria de solos e controle efetivo de gado.

Eles só conseguiriam plantar, colher e administrar aquilo que pudessem fazer sozinhos, o que implicaria numa mudança de cultivo comercial para cultivo de subsistência. Combinadas com práticas anti-sociais tais como a tomada de terras de viúvas ou órfãos da AIDS, estas tendências poderiam prejudicar fortemente a suficiência alimentar de certas regiões, o que já é um problema grave em muitos países de baixa renda. 

- São essenciais abordagens estratégicas nacionais e não apenas um número maior de projetos.

- O apoio da comunidade facilita a mudança de comporta-mentos individuais.

- É essencial uma liderança nacional.

- A educação sobre a AIDS nas escolas pode adiar a iniciação sexual e aumentar o uso de preservativos. É importante mudar as normas dos grupos que incitam os jovens a adotar um comportamento arriscado.

- Um bom número de meios de comunicação de massa pode atingir os jovens de forma eficaz, por meio de programas que não só entretêm mas também promovem um comportamento mais saudável.

- A melhoria do acesso aos preservativos, inclusive por meio do marketing social e outras fontes do setor privado, aumenta seu uso pelos jovens.

- A apresentação voluntária dos jovens para receber aconselhamento, fazer exames e serem encaminhados pode ajudar a mudarem seu comportamento e evitarem transmitir o HIV a outros.

- O tratamento das IST’s pode reduzir drasticamente a trans-missão do HIV.

- Os pais e outros adultos podem ser parceiros importantes na prevenção do HIV.

- Os esforços para melhorar a situação econômica e social dos jovens contribuem enormemente a outros esforços.

Fatores que podem obstruir ou diminuir os esforços de prevenção da AIDS:

- Concentrar-se apenas nos aspectos de saúde da epidemia, sem considerar outros aspectos tais como a educação, as condições de vida e as implicações mais amplas para o governo e a sociedade;

- Deixar de alcançar o público secundário, como por exemplo os pais e outras pessoas que correm o risco de infectar- se e transmitir o HIV;

- Não fornecer aos jovens informações que os ajudariam a proteger-se contra a infecção do HIV;

- Deixar de tratar das causas que estão na raiz da vulnerabilidade;

- Estigmatizar as pessoas infectadas com HIV/AIDS;

- Adotar planos e programas baseados em fundos disponíveis e em interesses particulares de agências doadoras, ao invés de basear-se em necessidades reais e estratégias já demonstradas; e

- Criar programas para os jovens sem conseguir a participação deles próprios.

É preciso agir agora

Ainda existe esperança. Mesmo nos países extremamente afetados pelo HIV/AIDS, a grande maioria dos jovens não está infectada. Estratégias amplas e dedicadas poderão eventualmente reverter a situação, se forem desenvolvidas imediatamente, aplicadas com vigor e disseminadas amplamente. As estratégias de prevenção da AIDS que focalizam a juventude têm que ser inovadoras, criativas e abrangentes. Têm que tratar tanto do comportamento individual que coloca os jovens em risco como da grande variedade de condições sociais, econômicas e sociais que contribuem ao comporta-mento arriscado.

Uma estratégia combinada para acabar com a AIDS é bastante compatível com a capacidade financeira mundial. Dos fundos anuais necessários para combater a AIDS em países de renda baixa e média—US$7 a US$10 bilhões, somente US$1,5 bilhão, ou seja menos do que 25% do total necessário, já foi empenhado. No mundo inteiro, a prevenção do HIV/AIDS é financeiramente viável, desde que os países doa-dores tenham a força política para fornecer os fundos e desde que os países recipientes levem a sério a epidemia. Na medida em que aumentarem os gastos gerais com o HIV/AIDS, a parcela dedicada aos programas especializados na juventude deve aumentar ainda mais. As parcerias entre os setores público e privado podem ajudar. As firmas do setor privado dispõem-se freqüentemente a doar serviços, fazer contribuições em espécie ou oferecer fundos.

Apesar de todos os países poderem desenvolver planos estratégicos nacionais de combate ao HIV/AIDS, não existem soluções fáceis. Os governos, ONGs, comunidades e o setor privado devem trabalhar juntos se o mundo ainda tem esperanças de evitar que uma geração após outra sucumba ao flagelo do HIV/AIDS. (Edição em português: setembro de 2002)